quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Morte de Sócrates

Dica de leitura do Samba de Terno: 276 páginas. R$ 34,90 (Livraria Cultura).


Por incrível que pareça, mesmo depois de setecentos milhões de livros e artigos escritos sobre o maior filósofo da Antiguidade - Sofista dos Sofistas - este livro sobre a morte do "homem que bebeu cicuta" vale muito a pena!

Quanto a Sócrates, particularmente, não me canso de amá-lo e de admirá-lo. Sócrates sempre foi como uma espécie de pai para mim. Muito da minha melancolia foi curada pelas suas ideias. É estranho sentir amor por um ser que eu não conheci, e que, ademais, morreu há mais de dois mil anos... Mas, quem entende as razões do coração? Quem dirá que o amor conhece os limites do tempo e do espaço?

Como não amar um homem que, no final das contas, morreu em favor da verdade, da humanidade e da liberdade? Não foi ele o precursor do Cristo, o maior entre os grandes?

Pois bem! Está recomendado. A autora do livro, a bem da verdade, eu desconheço, mas nem por isso fui procurar no Google. Escreve com alma. As tintas são as mesmas, o quadro é que ficou ainda mais vivo. Como dizia Raul Seixas, "a música é uma história simples, que ninguém se cansa de ouvir". E se Nietzsche dizia só ser capaz de acreditar num Deus que dançasse, digo-lhes isto:

Sócrates é música do Universo.


 

"Conhece-te a ti mesmo."

Boa leitura!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Caetano Veloso

Hoje é o septuagésimo primeiro aniversário do seu nascimento, e me parece que a ideia de vê-lo morrer deixa minha alma numa espécie de perplexidade palaciana, como se a própria gênese do meu mundo tivesse a ver com a sua música.

A minha educação foi pela música, pelo cinema, pelo teatro e, principalmente, pela literatura. E foi no sincretismo cosmopolita de Concretismo com Simbolismo das suas canções que eu achei os primeiros impulsos da criação do mundo. Foi na adolescência.

Ai do Brasil sem a tua música.

Um grande abraço.




quinta-feira, 27 de junho de 2013

Napoleão Bonaparte!

Essa semana eu li duas biografias sobre Napoleão Bonaparte. Se você for igual a mim, que adora biografias, vai gostar delas.

Um personagem apaixonante, dono de uma trajetória admirável e inspiradora. Um homem, é verdade, dado às paixões humanas com a inteireza do seu ser. Mas, por outro lado, uma espécie de semideus, convicto da potência de sua centelha divina. Soube como poucos utilizar toda a sua energia em seus projetos.

Isso tudo somado permitiu à criança pobre da Córsega se tornar o homem mais poderoso da Europa do seu tempo. Um vulto tão atraente, que embriagou não só os homens de sua geração, mas também os das gerações vindouras. Explica-se assim que grandes escritores como Stendhal, Vítor Hugo e Alexandre Dumas tenham dedicado centenas de páginas, com verdadeira adoração, ao general que se tornou imperador por meio exclusivamente das suas virtudes - abençoadas, é claro, pela Fortuna que acompanha os homens corajosos.

A linguagem fluida e o foco cirúrgico de André Maurois fazem dessa biografia uma leitura eletrizante. Ponto positivo também para as gravuras, que enriquecem ainda mais o livro.

Soldado por vocação e exímio estrategista, subiu gradativamente na hierarquia militar, até atingir o posto de General. Dali, sua incomum habilidade política o alçou ao posto de Cônsul, após um pequeno golpe de Estado. Por fim, sagrou-se Imperador da França.

Não se pode dizer que o Oficial Napoleão Bonaparte tenha perdido uma só batalha militar na vida, mesmo quando decidiu recuar, em Moscou - e até mesmo em Waterloo, se caiu em seguida, foi porque não quis mais hostilizar a Europa à custa das vidas dos cidadãos franceses.

No campo amoroso, também se pode dizer que foi um homem vitorioso. Bem... Se é verdade que sua primeira esposa, Josefina, a quem devotou amor eterno, o traía sem muito pudor (Napoleão inclusive sabia), nosso herói não será o primeiro nem o último grande estadista a sofrer desse mal da infidelidade feminina.

Cabe, por fim, o registro do autor de cabeceira de Napoleão Bonaparte: Plutarco foi o grande esteio da sua fundação filosófica. E eu, que sou amante dos filósofos gregos, atribuo a esta paixão de Napoleão por Plutarco não um mero detalhe, mas um encontro de almas afins - tal obra, tal inspirador.

Ardente biografia de Napoleão, por Stendhal. A sua devoção ao General, a quem serviu, explica-se novamente pela lei da afinidade das frequências: gênios se arvoram em gênios.


Encontram-se nesse livros as razões suficientes para a legitimidade do mito. Ah! E se Dumas dedicou uma "Biografia Literária" ao Imperador que se auto-coroou, debaixo do nariz do incrédulo Papa Pio VII, é porque até nisso Napoleão se destacou: possuía um relevante talento literário.


"Eh bien, imagino que tenha havido algo de valor naquilo. Mas digamos Waterloo... Era lá que eu devia ter morrido."



terça-feira, 25 de junho de 2013

Hércules e a Hidra.

Em 1.789, estourava na França a Revolução talvez mais impactante de todos os tempos - a Revolução Francesa. Dentre os estudiosos do movimento de alcance universal, há aqueles que defendem que "A Revolução Francesa ainda nem terminou".

Evidentemente, ninguém quer falar seriamente sobre Revolução no Brasil. Pelo menos, aqueles que sabem que, se em 1.789 foi necessário degolar dois ou três milhares de aristocratas e de "traidores da República",  para fazer triunfar a Revolução, em 2013, a morte como meio de se obter direitos fundamentais do ser humano não se coaduna com o novo mundo que queremos construir.

Durante a Revolução Francesa, houve muitas mortes, especialmente durante o período do Terror. Robespierre e Napoleão Bonaparte foram os principais legados políticos daquela época tumultuada da França.


Não vou aqui me aventurar a traçar paralelos entre a Revolução Francesa e os protestos que tomam conta do Brasil desde meados do mês de junho deste ano. Nem tenho condições técnicas para isto. Mas uma coisa eu posso dizer: se há um fator fundamental que conecta os dois momentos históricos, este é a situação insustentável a que o governo submeteu a maioria do povo. Opressão. Brincadeira. Desrespeito. Descaso.

O povo brasileiro tem sido montado desde a época do "descobrimento", tal qual um cavalo no eito, e tem sido esporado desde então, a fim de sustentar uma classe aristocrática que se reveza no poder há mais de quinhentos anos.

Quando um movimento dessa magnitude se levanta num país, só cabem, a meu ver, duas condutas plausíveis. Melhor dizendo, das diversas possibilidades, duas perguntas correm dentro da imediata prudência:

A) O que está havendo (de fato)?
B) Onde isso tudo pode chegar?

Na quinta-feira da semana passada, eu me juntei ao movimento. Movimento que começou como de costume, ou seja, fundado sobre o propósito do passe-livre (MPL), tendo como principais organizadores os partidos de esquerda, especialmente os que têm grande influência no movimento estudantil, dentre os quais podemos destacar o PT, o PCdoB (UJS), o PSTU, o P-Sol, etc.

Todos os anos, para quem não sabem, os estudantes organizam movimentos para protestar contra os aumentos das passagens dos ônibus. É uma espécie de ritual e, ao mesmo tempo, de laboratório para aqueles que têm a política correndo nas veias. Portanto, em 2013, os partidos de esquerda fizeram a mesma coisinha de todos os anos, acenderam a mesma "fogueirinha" de todos os anos, a fim de protestar contra o aumento da tarifa do transporte público. E quando eu digo "fogueirinha", não é no sentido de diminuir ou menosprezar o movimento.

Protestos contra aumentos na tarifa dos transportes são comuns. Durante o protesto de 2007, por exemplo, levei até tiro de bala de borracha  (doi!). O gigante acordou? Onde ele estava enquanto a gente levava bomba de efeito moral no pé-do-ouvido?


Mas... Como já dizia Heráclito de Éfeso: "nada no universo é permanente, exceto a mudança". E assim, ventos inesperados sopraram na planície onde fora acesa a "fogueirinha", e as labaredas se lançaram bruscamente em direção ao solo, ao céu, ao mar, em todas as direções, como se fossem línguas de dragões furiosos, lambendo com fúria tudo ao seu redor. Em poucas horas, o fogo se alastrou e fugiu ao controle dos primeiros manifestantes. O combustível do incêndio? Décadas e mais décadas de esquecimento e exploração do povo brasileiro. O veículo do combustível? A internet, as redes sociais - o Facebook.

Mark Zuckerberg, criador e administrador do Facebook, apoia os protestos no Brasil. Bom ou ruim? Sei lá! Eu sempre penso que os americanos não desejam nossa emancipação política.

Assim, o movimento, que era para ser "do passe-livre" (tarifa zero para os ônibus) - bastante pontual, portanto - tomou dimensão muito maior do que o esperado - tanto que os primeiros manifestantes trataram de tirar o time de campo, tão logo tomaram consciência do ninho de vespas o qual tinham atiçado.

Mas, por que esses primeiros manifestantes, supostamente mais politizados, tiraram o time de campo no exato momento em que o povo saiu das arquibancadas e partiu para a marca do pênalti, com mais afã do que um beduíno quando encontra um poço d'água no meio do deserto?

Simples: porque eles JAMAIS quiseram estabelecer o caos no país. Quando os rapazes e as moças, capitaneadas pelas raposas velhas dos movimentos sociais de base, perceberam que o coquetel molotov era mais quente que o sol, pegaram a saída do vestiário e deram no pé. Em outras palavras, perceberam que o feitiço poderia virar contra o feiticeiro - como de fato parece que virou. Porque o movimento saiu do controle de todo o mundo. Neste exato momento em que escrevo esse post, ele está fora de controle, e Deus, na sua eterna sabedoria, é quem impede que a massa faminta promova vingança contra os políticos corruptos que assolam o país há décadas.



O protesto dos brasileiros é, acima de tudo, contra os desmandos da lógica de mercado, somado à brutal corrupção que sempre foi tratada com impunidade no nosso país. Caros amigos, se nos aparece um Robespierre ou mesmo um Rousseau, eu penso que muita cabeça tinha rolado pelas rampas que conduzem ao Congresso Nacional... Mas, não. Curiosamente, coube a uma multinacional, ferida em seu orgulho marqueteiro contra outra montadora, elaborar a propaganda televisiva que detonaria a bomba-relógio. Quem diria que a FIAT seria responsável pela propaganda, contendo a mensagem subliminar que tirou o povo brasileiro das arquibancadas e o levou às ruas para protestar, em plena Copa das Confederações?







Pois é. Os mais céticos dizem que tudo vai dar em nada, porque não existe uma pauta clara de reivindicações por parte dos manifestantes. Outros apontam a despolitização do povo como fator principal de provável insucesso do movimento. Eu, de minha parte, me junto à turma que olha tudo com espanto e cautela, misto de alegria com tristeza, e atribuo a uma razão superior o vendaval que agita o nosso país. Queremos mudança de postura. Homens melhores estão se formando, e estes novos homens bons querem que a velharia corrupta se mande daqui. Sem violência, é claro. Mas que se mandem.

Se os movimentos fascistas golpistas (eles se sabem) pretendem se aproveitar do momento para fazer o que sabem fazer de melhor - dar golpe -, é bom se ligarem que os mesmos jovens que podem ter dado abertura à ideia do golpe estão dispostos a entregar a vida pela democracia. Da mesma forma, políticos que se aventurem a surfar na onda dos protestos podem fatalmente se chocar contra os corais que repousam ameaçadoramente no fundo do oceano.

O oceano é cheio de mistérios, principalmente quando está em procela. Já dizia meu pai: mar não tem cabelo.

O componente metafísico que anima a coletividade brasileira despertou. O gigante, na verdade, não acordou, porque não dormia inteiramente; apenas as células dos seus órgãos que ainda dormiam é que despertaram.

A internet está para nós assim como o fogo esteve para os nossos ancestrais. Ajudou a clarear a coisa toda, graças ao sacrifício de Prometeu. Com tudo mais claro, apanhamos a hidra de calças curtas, escondida nas trevas. Ei-nos agora, com a força de um Hércules.

Não é Revolução: é Evolução.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Habemus Franciscum




O processo de eleição do novo papa, que terminou nessa quarta-feira, me deixou bastante tenso. Enquanto eu aguardava o início de uma audiência penal, me flagrei roendo as unhas de nervosismo, enquanto a TV mostrava a bendita fumacinha saindo pela chaminé da catedral de São Pedro.

Isso tudo foi muito estranho! Ora, eu não me considero católico, já há algum tempo, de modo que a escolha do novo papa supostamente não me tocava em nada. Mas não foi bem assim. Nesse conclave, diferentemente do anterior, eu fiquei apreensivo e ao mesmo tempo esperançoso de que a Igreja pudesse enfim "olhar para dentro de si" e eleger um papa decente para ocupar o lugar de Pedro Simão. E quando eu digo decente, refiro-me a algum cardeal que pertencesse à Teologia da Libertação ou que, ao menos, estivesse disposto a dialogar sobre as bizarrices que a Igreja tem acobertado ao longo dos séculos (pedofilia, ditaduras, etc.).

Pedro Simão, o primeiro papa da Igreja Católica.


Sinceramente, eu não esperava que a Igreja elegesse uma papa que fosse discutir os seus dogmas. Por exemplo, o fim do celibato ou o uso de preservativos, isso eu não esperava que a Igreja fosse negociar com a sociedade. Dogma é dogma, a Igreja foi fundada sobre dogmas, e faz parte dela quem quiser. Como já disse Umberto Eco, a Igreja não tem que mudar seus dogmas para agradar aos fiéis, os fiéis é que têm que se adequar aos dogmas da Igreja. Em outras palavras, os incomodados que se mudem.

A eleição do papa argentino, Jorge Mario Bergoglio, é a cara da Igreja. Em primeiro lugar, trata-se de um sujeito de idade avançada, o que garante, ao menos em tese, um papado curto. Em segundo lugar, é latino-americano, porque ou a Igreja metia um papa americano, ou fechava as portas.  A pobre da América Latina, que luta em agonia para se livrar dos séculos de exploração da Europa, ainda se encontra de joelhos perante essa doença chamada catequese.

Portanto, um papa argentino, idoso, "franciscano", conservador, amigo da ditadura militar, filho de italianos e jesuíta não poderia ser escolha melhor para manter o status quo da Igreja. Pior de tudo: quando eu ouvi a nomeação dele, e que ele tinha escolhido o nome de Francisco I, fui tomado por uma onda de otimismo. Pensei que se tratasse de uma referência ao grande Francisco de Assis, o maior de todos os cristãos depois do próprio Cristo, símbolo maior de Bondade nesse planeta.

Qual o quê?! O Francisco que inspirou o novo papa não foi o de Assis, mas sim, o Xavier, fundador e pioneiro da Companhia de Jesus, responsável pela agonia dos nossos índios e braço direito da maléfica colonização ibérica na América Latina.

Francisco Xavier, fundador da Companhia de Jesus, inspirou a escolha do nome do novo papa.


Para quem já não se lembra (os católicos, os católicos...), Francisco de Assis, já despido de suas riquezas e laborando como "pedreiro de Deus", recebeu, certa manhã, a notícia de que não poderia seguir na sua pregação. Sua igreja, a mando do bispo, foi atacada e alguns de seus seguidores foram mortos na ocasião. Na verdade, tudo não passava de uma contra-ataque da Igreja, diante do voto de pobreza de Francesco, que assombrava as famílias nobres da cidade de Assis. Imediatamente, Francisco partiu para a sede da Igreja, em Roma, a fim de ter uma audiência com o papa Inocêncio I. Diante da sua pobreza e dos trajes maltrapilhos que vestia, Francisco foi recebido com escárnio e zombaria pela corte papal e, não fosse a intervenção de um amigo influente, teria maiores dificuldades em ser recebido, mais tarde, pelo pontífice. Francisco foi então anunciado. O papa o aguardava, sentado no trono, no auge da sua pompa, coberto de joias preciosas. Diante da zombaria em torno de sua figura, Francisco ajoelhou-se e replicou aos presentes e ao próprio papa:

"Olhai os lírios nos campos. Eles nascem com espinhos, porém, nem Salomão, no esplendor de sua glória, vestiu uma roupa tão bela quanto a deles. Olhai os pássaros no céu; não semeiam nem armazenam centeio, porém, o Senhor lhes provém."

Francisco de Assis é recebido pelo papa Inocêncio I: "Olhai os pássaros nos céus..."


Sua Santidade então compreendeu que todos ali, com exceção de Francisco, haviam esquecido a lição de Cristo e tinham caído em luxúria, vaidade e cobiça. Emocionado, Inocêncio I ajoelhou-se e, abençoando Francisco, beijou-lhes os pés sujos e chamou-o de verdadeiro cristão. E foi assim o encontro de Francisco de Assis com o papa.

No museu dos franciscanos, em São Paulo, há uma estátua em exposição, na qual Francisco, após receber as chagas do Cristo alado, encontra-se em seu colo. Francesco não era pouca coisa, pois esta estátua é a única no mundo que retrata o Cristo com asas.

Cristo desce à Terra para "entregar" as chagas a Francisco de Assis


Se por um lado a escolha do papa argentino (filho de italianos) é um fato histórico, por outro, pode acabar sendo um meio de desestabilizar politicamente a América Latina, no momento em que a Europa está economicamente arrasada e a América começa a se libertar do seu jugo. Quanto do nosso sangue foi derramado para satisfazer aos caprichos dos antigos reis? Quanto do nosso suor foi derramado para manter a riqueza daquele continente? Quantos dos nossos índios foram escravizados para enriquecê-los? Quanto do nosso ouro financiou as guerras e as maluquices das nações europeias? Quanto da nossa felicidade foi nublada pelos bancos daquele continente?

Amigos, eu sinto que pouca coisa mudou de 1.500 para cá, e que os europeus continuam nos enxergando como índios selvagens e heréticos. E que boa parte da Igreja Católica é eminentemente europeia. Etnocentrista. Catequética. 

Portanto, eu vos convoco a pensar: quem legitima a Igreja?

Por fim, vale a pena lembrar que o próprio Francisco, não o Xavier, mas o de Assis, já prestes a morrer, pediu encarecidamente aos seus seguidores que não fundassem nenhuma igreja nem nenhuma ordem após a sua morte. E que também nunca reformassem a pequena igrejinha que construíra em vida. Ora, ele bem sabia que a fundação de uma ordem seria o melhor caminho para se esquecer os seus ensinamentos. Dito e feito. Os franciscanos só sossegaram quando conseguiram sua própria Regra. Uma pena...

Desejo, do fundo do meu coração, que o nome do Francisco, escolhido pelo papa em homenagem ao jesuíta, acabe por invocar o arquétipo do outro Francisco, o grande amigo dos homens e de Deus. E que ele possa servir de instrumento de reforma para os seus líderes e de luz para os seus fiéis.

Habemus Franciscum.






segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Casamento da Enxada


Era uma enxada comum. Cabo resistente de madeira, medindo cerca de um metro de comprimento, e talvez uns quatro centímetros de diâmetro. Deve haver uma metragem padrão para enxadas, como tudo o mais nessa vida; mas Artur não sabia com certeza. Na ponta do cabo, a gente já sabe: um ferro achatado, cujo gume afiado é feito para cavar o chão, à força do homem, a fim de cumprir sua tarefa.

Todo o mundo sabe o que é uma enxada, e quem não sabe, basta imaginar um cabo de vassoura, só que mais grosso, com uma lâmina de ferro no lugar da piaçava. Ela é usada principalmente pelos lavradores. É peça indispensável em qualquer roçado. Agricultura sem enxada é difícil de se imaginar. São como a corda e a caçamba.

Estava repousando tranquilamente no depósito, que ficava nos fundos da casa. Na verdade, parecia escanteada. E estava mesmo. Afinal de contas, aquela não era uma casa de campo, apenas tinha um gramado na frente. Por isso, a enxada nunca era utilizada, de modo que estava meio esquecida. De onde viera, não posso dizer. Alguma alma criativa a trouxera até lá. Junto a ela, no cômodo escuro, conviviam desinfetantes, panos de chão, vassouras de toda sorte, aromatizantes de ambientes, água sanitária, baldes, esfregões e até um espanador.

Num sábado ensolarado, a turma chegou para o mutirão de limpeza. Arrastaram móveis, pintaram os cômodos, limparam o quintal, queimaram folhas secas, regularam o som, instalaram televisão, etc. Artur ficou responsável pelo jardim frontal, que incluía o gramado. Chegou cedo e pôs logo mãos à obra.

Foi ele quem primeiro enxergou a enxada. Lá fora, Julião, seu parceiro, aparava o mato com o cortador de grama elétrico. Artur foi lá dentro e abriu o depósito. “Uma enxada”, exclamou. “Por que está triste?”, pensou; “até chora. Mas há o cortador elétrico, que posso fazer? Não há função para essa enxada aqui”, concluiu.

Mesmo assim, Artur pegou a enxada. Era dia de mutirão, os ratos que saíssem de seus buracos, assim como as baratas. Solenemente, transportou a enxada dos fundos até o jardim. Julião laborava com vigor. Artur pousou a enxada no gramado, encostada na parede. Ela sorria. Sorria mesmo? Sorria. Julião suava. Resolveu descansar um pouquinho. Chegou-se para perto do amigo, desligou o aparador e passou a mão na testa, que brilhava. Nesse momento, enxada e aparador ficaram lado a lado.

Artur observava. O vento soprava. O sol dardejava. A vida acontecia.

Por debaixo da grama alta, caramujos se escondiam. Que violência lhes parecia aquele solão, quando o aparador elétrico raspava o cabelo do gramado e expunha-os cruelmente!

E sob aquele sol de verão, que alegrava os pássaros e aborrecia os caramujos, Artur celebrou o casamento do aparador com a enxada. Se bem que não era padre, mas isso lhe pareceu um mero detalhe. Fez tudo em silêncio, enquanto Julião, o único convidado, parolava, alheio ao matrimônio silencioso que transcorria bem debaixo do seu nariz. Depois, o celebrante abençoou o casal e desejou boa sorte.

Finda a cerimônia, Artur pegou de novo a enxada. “Não tem função essa enxada aqui, entendeu, Julião? Vou guardá-la no depósito.” Julião assentiu com a cabeça. O vento curtia sua pele. Julião era um sujeito legal. Artur disse que ia guardá-la de volta, e Julião religou o motor da enxada elétrica.

No caminho de volta, a enxada sorria mais. Sorria? Sorria. Lá dentro, antes de hoje, transitava de frio, solitária, sem função, sem vida, sem existência.

Agora, sorria. Casara-se com o aparador de grama. Não sentia mais frio.

E à noite, na hora de dormir, Artur se lembrou candidamente da sua enxadinha. E, sorrindo, rogou assim aos céus:

“Querido Deus, me dê um amor também.”

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Luz, câmera e Feliz Ano Novo.

Começar 2013 assistindo a um bom filme me parece um excelente presságio.

Arca Russa, de Aleksandr Sokúrov; eu já ouvira falar nele, mas só agora assisti a ele. O filme não tem cortes, foi filmado numa só sequência! Isso sim é que é um beijaço entre o teatro e o cinema (e as artes plásticas, mas aí você terá de ver o filme para compreender). Up to my top ten list.

O filme me fez pensar numa coisa: quanto de mentira deve conter na arte para que ela possa comunicar a verdade que reside dentro de cada um de nós?

Sério mesmo: um filme desse só acontece uma vez na vida e outra na morte. Se é que a morte tenha algo a ver com o cinema.



Por sinal, curioso fenômeno acaba de me ocorrer: além de ter iniciado 2013 com uma "bomba cinematográfica", igualmente encerrei 2012 com outro filmaço. Histórias Cruzadas, cujo diretor eu desconheço, mas que foi capaz de me emocionar demais. Retrata a realidade das empregadas domésticas negras da cidade de Jackson, no estado do Mississipi, durante os sombrios anos do apartheid dos EUA. Daí, uma escritora branca, jovem, bonita e inteligente resolve narrar as histórias daquelas mulheres oprimidas e publicá-las num livro. 

Oh, a literatura tão assim, no cinema, exercendo sua função mais célebre: nomear uma dor e promover a mudança no mundo.




Potente! 

Ah, quero dizer também que fui, no dia de ontem, ao Cinemark do shopping RioMar e... E o dinheiro é fogo mesmo. Que coisa! Aquilo é que é cinema. O Hermitage do cinema recifense. Gostei dessa comparação. Ali, qualquer filme (nem tanto) vale a pena ser assistido, só para estar no conforto - ou melhor, luxo - daquela sala de cinema. Um verdadeiro presente para qualquer cinéfilo. 

Pois é, saí de 2012 e ingressei em 2013 como vim ao mundo: no ventre da arte, de placenta com o cinema, que só não me tem mais que a Literatura.

A educação pela arte: um dia escrevo um ensaio sobre o tema.

Feliz 2013, ao som de Erik Satie.