sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Recife de mármore

 "Logo na segunda página, onde assinalava como uma vergonha a preponderância dos interesses pecuniários, o banqueiro fez uma careta. Depois, entrando no capítulo das reformas, Frédéric pedia a liberdade do comércio:

- Como?... Mas perdão!

Ele não entendeu, e continuou. Reclamava o imposto sobre rendimento, o imposto progressivo, uma federação europeia, e a instrução do povo, o maior estímulo às belas-artes.

- Se o país desse a homens como Delacroix e Victor Hugo cem mil francos de rendimentos, que mal haveria nisso?

E no fim vinham os conselhos às classes superiores:

- Não poupeis nada, ó ricos! Dai! Dai sempre!"

Este pequeno discurso, elaborado  por um jovem burguês do início do século XIX, dirige-se a um nobre porém aflito banqueiro, que busca uma maneira de manter sua fortuna, em meio ao caudaloso golpe burguês que destronara o rei da França e abrira os caminhos para a implantação da República. São trechos do romance A Educação Sentimental, do célebre escritor francês, Gustave Flaubert.

Não me parece incrível que O Manifesto do Partido Comunista tenha inspirado definitivamente o referido golpe burguês. Parece-me incrível, isto sim, que muitos adoradores de Marx (muitos se encontram no poder, diga-se de passagem) ainda combatam uma ideia velha.

Ontem à noite, estive no Teatro de Santa Isabel para assistir à opera Don Giovanni, de Mozart. Certamente, quanto a isto, alguém dirá: "é uma vergonha essa ópera no Santa Isabel, pois tendo-a visto na Europa, jamais perderia meu tempo assistindo a ela em Recife". Eis o velho orgulho provinciano recifense, que atravanca o progresso da cidade como um todo. Não admira que o próprio Don Giovanni sorrisse disto.

Vivam as mulheres, viva o bom vinho, sustento e glória da humanidade!


Quando eu era mais jovem, conectei Machado de Assis a Gustave Flaubert de maneira indissolúvel. Mais tarde, veio se juntar aos dois primeiros a figura de Stendhal. Quincas Borba e Dom Casmurro não escondem as influências sofridas pelo nosso escritor fluminense dos autores de O Vermelho e o Negro e Madame Bovary; A Educação Sentimental, por sua vez, escancara a fonte estética e o drama social que marcou profundamente a obra de Machado.

Sabemos também que o Classicismo influenciou de maneira marcante a sua obra. Em seus romances, as óperas são sempre momentos especiais, ocasiões em que seus personagens deixam transbordar as fraquezas, os preconceitos, mas também onde confessam suas aspirações cosmopolitas. Ali, também, Machado sempre evoca a evolução do nosso país, por meio da arte, que alimenta o espírito e não deve faltar na educação das pessoas.

Eu, sentado no pátio da escola, a ler Dom Casmurro, suspirava: - No dia em que tivermos óperas em Recife, aí sim, serei feliz! Eis, pois, a ópera, a alegria, e, somadas a isto, as duras críticas à exploração que uma restrita casta de cidadãos impõe a uma multidão famigerada, carente de tudo - inclusive, de arte.

Longe de querer me tornar melodramático, mas Don Giovanni também não foge à lógica da angústia burguesa: o próprio Mozart não foi massacrado pela nobreza, pela falta de dinheiro, pelos prazos, pelo medo enfim de sucumbir à miséria?

A chegada de Marlos Nobre à regência da Orquestra Sinfônica do Recife já me havia alegrado, e agora torço para que esta ópera, - espero que a primeira de muitas -, permita que nossa cidade se sutilize progressivamente. Parece que o governador está de olho nisto. Nada lhe escapa, de fato. Marlos Nobre agradeceu muitíssimo ao prefeito no último concerto. Bem, se o caminho tiver que ser este, que seja. Contudo, não estacionemos!

Quanto à obra em si, muito temos a aprender com Don Giovanni - os homens a as mulheres! Vale a pena assistir. Afinal, "a morte dos pérfidos é sempre igual à sua vida". Ou, como eu gosto de dizer: a gente só morre daquilo que viveu.




Onde: Teatro de Santa Isabel.
Quando: hoje e amanhã, às 20h; domingo, às 19h.
Quanto: R$ 40,00, estudantes, idosos e professores pagam meia-entrada.
Dica: Preferir camarote, e chegar cedo para se sentar na frente. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Padrão

Padrão

O esforço é grande, e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para adiante naveguei.

A alma é divina, e a obra é imperfeita,
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o amor com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará em Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A lama que vem do mangue.

Segunda-feira, 9 horas e 54 minutos da manhã. Faz calor no Recife, principalmente na região que ocupa o interior deste paletó negro que me veste. No caminho de casa para o trabalho, encontro o de sempre: muito calor, muita sujeira, muitos buracos no asfalto, muito barulho, muito pedinte, dezenas de ambulantes a gritar e praguejar contra o mal tempo, etc. Enfim, tudo aquilo que compõe o belo cenário cotidiano da Veneza brasileira, orgulho dos recifenses.

À beira do canal de Boa Viagem, que perfuma o bairro nobre com seu odor de bosta e de urina, famílias inteiras de mendigos maltrapilhos tomam café da manhã alegremente. De lá, cobiçam o hotel abandonado, do outro lado da rua, que por duas ou três vezes ilegalmente ocuparam, e que foi batizado, na ocasião, de Residencial Barack Obama.

Alheia a tudo isto, no rádio do meu carro, Maria Bethânia canta vigorosamente alguma música de Roberto Carlos, que de mais a mais, parece ter nascido para compor músicas para a diva baiana.

Chego ao meu destino em pouco menos de dez minutos e estaciono meu carro na rua mesmo, porque não há vagas no estacionamento do escritório. Isso significa que, ao meio-dia, o carro estará tão sujo quanto se passasse a semana inteira estacionado na garagem do edifício. Mais dinheiro para o lavajato e menos para mim. Eis o ciclo da vida.

Dou bom-dia a todos os porteiros, ao manobrista, ao segurança e à faxineira. Tomo o elevador e chego à minha sala. Dou bom-dia a todos, dispo-me do paletó e sento na cadeira.

Segunda-feira, início da semana. Pessoas começando regime, aquela coisa toda. No sábado, às nove horas da noite, um cliente havia me ligado, cobrando uma posição a respeito do seu processo. No sábado, eu disse. Às nove horas da noite, eu disse. Com o fórum fechado, e o juiz, descansando. Ele próprio, o cliente, tinha a voz embargada pela cachaça. E eu, o único que não tem direito a descanso. Nem aos sábados. Nem às nove horas da noite. E depois, as pessoas não entendem por que os advogados são gordos e carecas. Eis o ciclo da vida.

Por isso, na segunda-feira, a primeira coisa que faço quando chego ao escritório – antes mesmo de entrar no Facebook e invejar a felicidade geral da população recifense – é pegar no telefone e ligar para o Fórum da cidade onde corre o processo do meu cliente.

- Bom dia. Me transfira para a 2.ª Vara Cível, por favor (me permitam ocultar a cidade, para evitar constrangimentos a possíveis leitores).

A telefonista transfere a ligação. Atende o servidor da Vara. Digo o número do meu processo e ele o abre na tela do seu computador:

- Pois não, senhor, em que posso ajudar?
- Então, amigo, eu queria saber como é que a gente faz para marcar a perícia do meu cliente; desde março que o processo foi remetido para a perícia, e até agora eu não fui intimado, não recebi ligação, nada.
- Sei...
- E como você pode imaginar, meu cliente me liga bastante, cobrando... Afinal de contas, trata-se de uma verba alimentar, e já faz um ano e meio que eu dei entrada no processo e...
- Olhe, senhor – interrompe o jovem, destemido – o senhor tem que ligar para o Centro de Perícias e ver lá como é que faz, porque aqui a gente não sabe como funciona.

Silêncio de ambos os lados.

- Você tem pelo menos o telefone de lá? – pergunto, meio atarantado, porque confesso que não esperava por essa resposta.

Lá de dentro, uma voz feminina grita o número da Central de Perícias. O rapaz repete o número em voz alta, que eu me apresso em anotar. Em seguida, agradeço e desligo o telefone.

E fico com a certeza de que o povo de Pernambuco tem os políticos que merece e o Judiciário que merece, em obediência à lei que Platão, Rousseau e tantos outros filósofos já se cansaram de explicar. E que o orgulho e o complexo de superioridade especificamente dos recifenses ainda vai levar essa cidade de volta à condição da qual ela não deveria nunca ter sido arrancada tão indiscriminada e violentamente: para dentro do ventre do mangue.





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Eu, tu e nós

Um passo importante na vida de qualquer homem é substituir o "eu" pelo "nós". Quando um homem faz essa singela troca de pronomes, em seu discurso, isso significa que ele pelo menos já considera a possibilidade de que construir para os outros e com os outros é melhor e mais importante do que construir para si. E junto, de preferência.

Quando abandonamos a nossa zona de conforto, o Universo olha para nós. Sabe, eu acho que as pessoas amarguradas e más são sempre aquelas que nunca abandonam a sua zona de conforto. Zona de conforto, nós sabemos, é aquela redoma invisível na qual alguns de nós nos encarceramos de vez em quando e cujos limites nos transmitem uma falsa sensação de segurança, porque as variáveis que orbitam por dentro da redoma nos são supostamente conhecidas.

Portanto, as pessoas que se metem deliberadamente dentro da sua zona de conforto estão sempre a desdenhar daqueles que se lançam à vida. Trancafiam-se lá dentro e atiram a chave fora. De lá, põem-se a lançar pedras contra os telhados dos outros, porque subiram na laje da sua pequena casinha de tijolos e pensam que podem tudo. São os reis das lajes. Tristes pessoas que... Não podem reinar além de seus próprios telhados.

E ser o rei do seu telhado não é má coisa, na verdade - desde que você não perca a coragem de saltar dele de vez em quando para alçar voos pelo mundo, porque, afinal de contas, ninguém leva a casa de tijolos no bolso quando sai para voar. Passarinho não carrega a gaiola nas costas quando voa, a não ser nos contos de fada.

Viver dentro da zona de conforto é como ser peixe dentro do aquário: tem comida, tem segurança - mas não tem o inefável gosto de arriscar a própria vida na busca por novos horizontes. Nada de novos temperos, de novos peixinhos, de fugas alucinantes de tubarões e de novos amores. Não. O deus dos aquários é previsível demais para os pássaros.

Assim, quando um ser humano abandona a zona do "eu", ele está consequentemente abraçando o "nós" e saindo da sua zona de conforto. Daí, ele se liberta de toda a amargura que antes o acorrentava ao solo, porque agora ele sabe que o mundo é grande e que a força só está com quem ama. Não basta ser capaz de amor, tem que ser capaz de amar.

Eis a magia da vida: atirar-se sem medo no "nós".

Viva o amor.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A Morte de Sócrates

Dica de leitura do Samba de Terno: 276 páginas. R$ 34,90 (Livraria Cultura).


Por incrível que pareça, mesmo depois de setecentos milhões de livros e artigos escritos sobre o maior filósofo da Antiguidade - Sofista dos Sofistas - este livro sobre a morte do "homem que bebeu cicuta" vale muito a pena!

Quanto a Sócrates, particularmente, não me canso de amá-lo e de admirá-lo. Sócrates sempre foi como uma espécie de pai para mim. Muito da minha melancolia foi curada pelas suas ideias. É estranho sentir amor por um ser que eu não conheci, e que, ademais, morreu há mais de dois mil anos... Mas, quem entende as razões do coração? Quem dirá que o amor conhece os limites do tempo e do espaço?

Como não amar um homem que, no final das contas, morreu em favor da verdade, da humanidade e da liberdade? Não foi ele o precursor do Cristo, o maior entre os grandes?

Pois bem! Está recomendado. A autora do livro, a bem da verdade, eu desconheço, mas nem por isso fui procurar no Google. Escreve com alma. As tintas são as mesmas, o quadro é que ficou ainda mais vivo. Como dizia Raul Seixas, "a música é uma história simples, que ninguém se cansa de ouvir". E se Nietzsche dizia só ser capaz de acreditar num Deus que dançasse, digo-lhes isto:

Sócrates é música do Universo.


 

"Conhece-te a ti mesmo."

Boa leitura!

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Caetano Veloso

Hoje é o septuagésimo primeiro aniversário do seu nascimento, e me parece que a ideia de vê-lo morrer deixa minha alma numa espécie de perplexidade palaciana, como se a própria gênese do meu mundo tivesse a ver com a sua música.

A minha educação foi pela música, pelo cinema, pelo teatro e, principalmente, pela literatura. E foi no sincretismo cosmopolita de Concretismo com Simbolismo das suas canções que eu achei os primeiros impulsos da criação do mundo. Foi na adolescência.

Ai do Brasil sem a tua música.

Um grande abraço.




quinta-feira, 27 de junho de 2013

Napoleão Bonaparte!

Essa semana eu li duas biografias sobre Napoleão Bonaparte. Se você for igual a mim, que adora biografias, vai gostar delas.

Um personagem apaixonante, dono de uma trajetória admirável e inspiradora. Um homem, é verdade, dado às paixões humanas com a inteireza do seu ser. Mas, por outro lado, uma espécie de semideus, convicto da potência de sua centelha divina. Soube como poucos utilizar toda a sua energia em seus projetos.

Isso tudo somado permitiu à criança pobre da Córsega se tornar o homem mais poderoso da Europa do seu tempo. Um vulto tão atraente, que embriagou não só os homens de sua geração, mas também os das gerações vindouras. Explica-se assim que grandes escritores como Stendhal, Vítor Hugo e Alexandre Dumas tenham dedicado centenas de páginas, com verdadeira adoração, ao general que se tornou imperador por meio exclusivamente das suas virtudes - abençoadas, é claro, pela Fortuna que acompanha os homens corajosos.

A linguagem fluida e o foco cirúrgico de André Maurois fazem dessa biografia uma leitura eletrizante. Ponto positivo também para as gravuras, que enriquecem ainda mais o livro.

Soldado por vocação e exímio estrategista, subiu gradativamente na hierarquia militar, até atingir o posto de General. Dali, sua incomum habilidade política o alçou ao posto de Cônsul, após um pequeno golpe de Estado. Por fim, sagrou-se Imperador da França.

Não se pode dizer que o Oficial Napoleão Bonaparte tenha perdido uma só batalha militar na vida, mesmo quando decidiu recuar, em Moscou - e até mesmo em Waterloo, se caiu em seguida, foi porque não quis mais hostilizar a Europa à custa das vidas dos cidadãos franceses.

No campo amoroso, também se pode dizer que foi um homem vitorioso. Bem... Se é verdade que sua primeira esposa, Josefina, a quem devotou amor eterno, o traía sem muito pudor (Napoleão inclusive sabia), nosso herói não será o primeiro nem o último grande estadista a sofrer desse mal da infidelidade feminina.

Cabe, por fim, o registro do autor de cabeceira de Napoleão Bonaparte: Plutarco foi o grande esteio da sua fundação filosófica. E eu, que sou amante dos filósofos gregos, atribuo a esta paixão de Napoleão por Plutarco não um mero detalhe, mas um encontro de almas afins - tal obra, tal inspirador.

Ardente biografia de Napoleão, por Stendhal. A sua devoção ao General, a quem serviu, explica-se novamente pela lei da afinidade das frequências: gênios se arvoram em gênios.


Encontram-se nesse livros as razões suficientes para a legitimidade do mito. Ah! E se Dumas dedicou uma "Biografia Literária" ao Imperador que se auto-coroou, debaixo do nariz do incrédulo Papa Pio VII, é porque até nisso Napoleão se destacou: possuía um relevante talento literário.


"Eh bien, imagino que tenha havido algo de valor naquilo. Mas digamos Waterloo... Era lá que eu devia ter morrido."