sábado, 19 de maio de 2012

Perdemos o sentido da linguagem, Arthur. Com isso, quero dizer que não temos mais a mínima vontade de sair na rua, principalmente porque faz muito calor.

Mas também não se pode ficar o tempo todo em casa, agitando o membro com movimentos modulares e esperando fazer disto a única forma (talvez suprema) de prazer e desprazer, ao mesmo tempo.

Oh, Arthur, rei da Távola Redonda, era para acontecer assim mesmo?! Por que essa vontade avassaladora de se integrar ao movimento das estrelas, se você não suporta sequer o caminhar de uma lesma no jardim de flores esfuziantes da sua casa?

x

- Merlin, Merlin, não se vá! Por favor, não se vá ainda! Deixe-me replicar, dê-me pelo menos este direito.

Eu imploro, Merlin...

domingo, 13 de maio de 2012

Felizmente, aprendi a lidar com a paixão. 
Antes, eu passava 100% do meu tempo pensando nela; agora, só 80%. Nos outros 20%, fico pensando em maneiras de não pensar nela.

Portanto, hoje, (ah, se fosse possível; se houvesse um pouco mais de coragem) - e como não há -, é com essa canção que eu docemente recordo o aroma da sua pele.


Porque essa paixão é triste e doce ao mesmo tempo, como uma bossa-nova.

Ah, a paixão... Como enche de vida o coração...

domingo, 29 de abril de 2012

Perguntei ao meu coração: o que devo ler agora?

E ele: outro de Paulo Coelho.

- Não era bom dar uma temperada nisso? - retruquei.

- Temperar o quê? - questionou ele, confiante. Você não acha que já leu muita coisa triste e sem sentido na sua vida?



domingo, 8 de abril de 2012

Tiros e papoulas em Boa Viagem




Eh! Acabam de matar um vivente na rua em frente. Ouvi os estalos, pensei que eram fogos, mas depois do segundo pipoco, constatei que eram tiros. Tiros, tiros em Boa Viagem. Em poucos segundos, o povo se aglomerou, a polícia chegou e não perseguiu ninguém, tampouco isolou o local do crime. Logo mais, chegará a imprensa, depois a família e amanhã, passeata na Avenida Boa Viagem. Enquanto isso, o prefeito janta, o governador beberica digestivo, a presidente articula qualquer coisa e deputados e senadores confabulam sobre as obras da Copa do Mundo.

Pensei que eram fogos, depois constatei que eram balas. Ali está o corpo, estirado, virado de banda, sem nenhuma dignidade. Chega a notícia: era um traficante, foi morto por outro, acerto de contas.

O alívio é geral: eles que se danem, eles que se matem. É menos um. No fundo, porém, foi mais um crime. Homicídio, dirão os juristas. Não importa! Importa que foi mais um crime, mais uma violência. Está lá, atirado. Se não fosse pelo sangue que escorre na rua e pela respiração ausente de suas narinas, dir-se-ia que dormia. Tomo do binóculo para ver mais de perto. Quero também fazer parte do terror que é a morte misturada à violência do assassinato. Lágrimas pulsam dentro do meu peito, mas eu as represo nas abas dos olhos. Vale lá a pena chorar por um traficante morto?

Relembro a cena: fazia meia-hora e eu contemplava a lua, que ia mais linda do que nunca. Profetizava os tempos de paz que os céus nos reservam. E, de repente, os estalos... Foi-se mais um homem. O agressor trajava camisa em tom de pastel e calças moletom. Vestiu uma mochila nas costas (seguramente os despojos do crime) e deslizou pela rua, querendo se misturar às sombras. Fugiu, ninguém o apanhou. Que carrega em seu coração? Matou como Cândido ao barão ou como Raskólnikov à velha Aliena Ivánovna? Que sentiu ao chegar a casa?

Não importa. Foi um crime. Há poucos metros da minha casa, numa rua por onde eu trafego constantemente. Gente honesta anda por ali, gente que não mata e não quer morrer. Agora eu entendo o nosso prefeito, quando alugou carros blindados para ele e para o vice-prefeito. A cidade está muito perigosa. Entendo também o ex-governador quando abriu uma empresa de segurança privada. E entendo o ex-prefeito, quando mandou seus filhos para morarem na Europa.

Eu, se pudesse, teria feito todas essas coisas também: compraria um carro blindado para o meu pai, mandaria minhas irmãs para a Europa e abriria um empresa de segurança privada para o povo contratar. Eh! os políticos não são tão bobos quanto a gente pensa...

Dirão: o homem é produto do meio. Mas eu digo, depois do meu mestre: o meio é produto do homem. E essa inversão de paradigma, tão óbvia a princípio, encerra em seu seio uma concepção filosófica que deseja modificar o mundo radicalmente; aliás, modificar, não, criar outro inteiramente novo.

Ao povo, ficará a versão que melhor aprouver a quem manda na cidade. Os abutres já estão ali, no local de cena. Vestem coletes marrons e anotam depoimentos em pequenos cadernos. Há câmeras de TV e máquinas fotográficas. Veem-se os flashes. Ouvem-se sirenes. Chegam os peritos. Quem comprará o caixão? Cemitério, escolheram? O redator do jornal se ouriça: - pessoal, temos que mudar a capa do jornal de amanhã, ele diz. E apaga-se a cena.

Foi mais um crime. Amanhã eles contarão na televisão. Até quando, pergunta meu coração. Eh! Artur. Está chegando a hora. É preciso ter fé. É preciso continuar lutando pelo mundo melhor. Vá dormir. Melhor o que faz. Dormindo, esquece um pouquinho. Vou mandar aquele colibri que tanto o alegra quando sonha. Verá que grande pílula contra o medo!

É preciso ter fé. Os assassinatos vão terminar. Imagine a cidade coberta de flores, de papoulas vermelhas, idênticas à da tua infância, meu filho. E luta, na física e na metafísica. Mas, agora, dorme e descansa, que eu vou recolher mais esta alma que deixou o teu mundo.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tua amiga feminina

Se acaso tu és homem, e gostarias de saber se uma mulher é tua amiga, eis aqui um pequeno e infalível dicionário desta estranha amizade:

1. Se ela já chorou no teu ombro uma vez e estava bêbada, ela não é necessariamente tua amiga, pois as mulheres possuem um interruptor de lágrimas que sempre é ativado pela bebida em demasia. Principalmente se for vodca.

2. Se ela já chorou no teu ombro uma vez, e não estava bêbada, ou ela estava muito carente ou você simplesmente estava passando na hora. Era o que tinha para hoje, mais ou menos como uma cadeira numa agência bancária: senta-se na primeira que lhe der na telha.

3. Se ela escolheu você para chorar no ombro, uma amizade pode estar nascendo. Ou um romance. Depende.

4. Se ela já chorou no teu ombro mais de duas vezes, nem adiante tentar esconder, porque todo o mundo já sabe que vocês ou estão tendo alguma coisa ou já tiveram. Uma mulher nunca chora duas vezes no ombro do mesmo homem, a não ser que já tenha trocado ao menos uns beijinhos com ele (sim, mesmo que nas duas vezes ela estivesse bêbada).

5. Mas se o choro chegou na calada da noite, quando o mar soprava absoluto. Se a pequena te chorou alguma mágoa pelo telefone, ligou-te unicamente para isto, aos soluços, então te aconselho cuidado e perícia: há uma vida em tuas mãos.

6. Agora, se enquanto ela chorava, bêbada ou não; se enquanto ela derramava aquelas doces lágrimas, toda se querendo; se enquanto isto a mulher te revelou algum segredo... Digo-te com toda franqueza que estás enrascado, pois, ou romance ou amizade, teu destino está selado com o dela. Quero com isso dizer que tens com ela um pacto eterno. Vocês transmutaram um pouco da alma de cada um para dentro da outra. Certeza.


De modo que duas coisas são de vital importância para o homem que deseja se aventurar nas perigosas ondas do universo feminino: as lágrimas e os segredos. Saibam, companheiros, que estes dois elementos são o canto da sereia. É com eles que elas nos atraem para o meio, para o vão de suas pernas.

Após isto, quem é homem e não resiste aos encantos de uma bela donna, sabe que o céu e o inferno estarão ao mesmo tempo nas mãos daquela que os carregou para uma ilha de amor no meio do oceano atlântico...

Pois assim o desenhou o Criador. É este o nosso estranho destino sobre a terra: mulheres seduzem e homens são seduzidos. Esta é a estupidez de cada um: mulheres se desesperam para seduzir e homens, para serem seduzidos.

E se me perguntas: vale a pena ser amigo de uma mulher? Eu te direi que sim, desde que te seja dado o direito de desejá-las em silêncio, pois no dia em que a mulher perceber que abandonaste completamente a intenção de desejá-la, ela alimentará tua amizade com a mão direita, mas com a esquerda estará pronta para desferir-te um golpe mortal em sua honra.

Sim, amigos, as mulheres são pequenas criaturas que nasceram para ser amadas e desejadas. Não as desespere, não as faça sofrer. Se queres sentir a felicidade de se aprofundar na alma duma mulher, não te esquece de que teu escafandro não pode jamais privá-las de enxergar nos teus olhos a chama da lascívia. É durante a caminhada que ela te entregará a chave para abrires as portas.

Vai com paciência. Desfruta tudo. Bebe tudo. Não toca em nada, não tira nada do lugar, que elas enlouquecem. Mas cheira tudo, come tudo, bebe tudo, admira tudo e, principalmente, elogia tudo.

Assim é a vida, só assim vale a pena ser vivida uma vida.

Todo homem deve ter pelo menos uma amiga na vida, para o resto da vida.

Eu já tenho a minha, e não posso dizer que esteja pronto para divida-la com outro. Porque, esqueci de dizer, se não demonstrares ciúme por ela, ela te aniquila. Faz parte... Quem poderá culpá-las? As mulheres não pensam com o cérebro, mas com o coração. Quem irá culpá-las por isto?

Portanto, dou-te isto como tarefa, de quem humildemente conhece alguma coisa da matéria: arranja uma amiga. Um dia, quem sabe, sentamos nós dois, e conversamos um pouco sobre o assunto.

quinta-feira, 29 de março de 2012



Rapaz, eu vou lhe dizer uma coisa: chega uma hora em que o cidadão pega a vida pela gola da camisa e diz: "Chega, caramba!".

Eu disse isso à minha vida, sexta-feira, na saída do escritório, enquanto aguardava a moça do décimo andar descer para tirar o carro dela de trás do meu. Mentira, eu disse pior, eu chamei ela de sua p%#@rra (a vida e, não, a moça). Vão desculpando o palavrão.

Enfim...

O ato de dizer à vida que "chega de tanto ela o sacanear", é quando você começa a compreender que na verdade, a vida não o sacaneia. Nem a você nem a ninguém. Só existe uma pessoa que te sacaneia, no final das contas. Você mesmo.

Você já parou para pensar que o lugar que você está ocupando agorinha mesmo foi você quem escolheu? Hã? Duro de pensar assim, não é mesmo? Ora, é muito mais fácil colocar a culpa dos nossos fracassos nas costas dos outros: do nosso chefe, dos nossos pais, do nosso professor, de Deus, do frentista do posto, do sorveteiro, da vida... Menos nas nossas próprias costas.

Importante frisar que este que vos fala não se considera de maneira nenhuma um sujeito plenamente realizado. Quero dizer com isto que, se você é daqueles que SABE que tem alguma coisa para mudar na sua vida mas (ainda) não teve CORAGEM de colocar isto em ação, eu me identifico com você. Nós estamos no mesmo barco, comendo do mesmo pirão. Pirão meio fraco, inclusive... Sem tempero... Parece que foi feito sem amor.

Amigão (amigona), nós somos responsáveis por tudo o que acontece na nossa vida. T-U-D-O. Do corte de cabelo até o emprego que desce mais quadrado do que a bola do Quico, tudinho é de nossa responsabilidade. E francamente, de nada adiantam as novelas mexicanas que nós porventura criamos na cabeça, com direito a "adeuses, mundo cruel", e tudo o mais.

Chefe, o universo não vai esperar por você, não. O trem está parado na estação, de portas abertas para você. Mas a decisão de entrar ou não, é sua. Sua somente. Esqueça sua namorada, seu noivo, seu râmister, sua mãe neurótica, seu primo mentiroso, seu colega de trabalho filho da mãe, seu sei lá mais o quê e decida! Pegue o trem. Meta a tesoura na cartolina. Desenhe uma nova história. Mude as tintas, mude a tela, mude a técnica, assuma seu papel de pintor da aquarela.

Eu sei que não é fácil. Escrevo esse post olhando bem para dentro de mim mesmo. A cada letrinha que aparece na tela do computador, eu desejo que a mensagem se codifique no meu cérebro e impulsione minhas próprias ações.

E eu falei tudo isso para dizer apenas uma coisa. Uma coisa que, na verdade, nós ouvimos todos os dias da boca das pessoas mais especiais do mundo. Muitas grandes mentes já falaram antes. Os artistas verdadeiros não se cansam de dizê-la. E todo o mundo que é feliz repete infinitamente a tal coisa. Porque é preciso repetir. Se não fosse, a humanidade não estaria repetindo-a insistentemente há dez mil anos.

Repetimos como que querendo nos convencer dessa verdade. A mais forte verdade. A mais bela. A mais urgente. A que deixa coloca nosso coração diretamente em contato com Deus:

É preciso correr atrás dos nossos sonhos.






sábado, 17 de março de 2012

Domando a nossa fera

A maioria das pessoas têm alguns probleminhas de personalidade. Umas confusõezinhas mentais, podemos dizer assim. Eu não sou diferente dessas pessoas. Tenho meus problemas. Muitos deles, eu tenho conseguido trazer à consciência. Gradativamente, tenho lançado luzes no meu inconsciente, na tentativa de detectar onde e por que é exatamente que meus medos se manifestam. Mas essa não é uma tarefa nada fácil.

O medo é fruto da ignorância.

Quando ignoramos uma coisa, temos medo dela. Quando ignoramos uma coisa por muito tempo, ela passa a nos destruir. Como a morte, por exemplo. Porque a ignoramos, passamos a vida toda com medo dela, angustiados com o dia em que ela vai chegar. Porque ela vai chegar. Invariavelmente. Essa angústia é tão grande que a gente não pode nem ouvir falar no assunto. E gera ansiedade. Ansiedade é quando a gente reconhece uma coisa e não tem coragem de enfrentá-la. E aí a destruição vem em dobro, porque a ansiedade nos leva a agir como presas acossadas pelo predador, que é a vida.

O ser humano é uma fera cujo principal alimento é a ignorância. Quanto mais ignoramos, mais bruta e devoradora de almas se torna essa fera. E essa fera (eu lhes asseguro), sente mais fome quando é jovem, época em que ela é também mais forte e vigorosa. Portanto, é preciso conhecer para alimentá-la.

Você não espera manter à base de mingau um leão, espera?

Em outras palavras, quanto mais ignoramos, mais medo temos de viver; quanto mais medo ao viver, mais angústia e ansiedade; quanto mais ansiedade, mais bobagens nós fazemos com a nossa vida.

Acontece que Deus é Bondade - o bom Deus nos dá tudo aquilo que nós pedimos de coração. E é por isso que a ignorância pede perdão. "Deus protege os bêbados e as crianças, porque eles não sabem o que fazem." E à frente, nós vamos. Porque a ignorância são as trevas, e o conhecimento é a luz. Embora doa nos olhos. E na alma. Lá no fundo.

O que é preciso, então, para ser feliz? Eu penso que para isso é necessário conhecer nossos demônios. Sim, nós temos demônios, do grego daimónion, gênio inteligente que preside o caráter dos homens. E é preciso identificá-los para combater com eles. Ao lado ou contra eles. Mas combater.

Porque Deus (não importa o que você chama de Deus) escolheu esse corpo para nele fazer combates de dualidades: frio e quente, doce e amargo, alegre e triste, homem e mulher, amor e ódio, razão e emoção, entre outras coisas. O ser humano é a luta da carne com o espírito. Bem-aventurados são aqueles que obtêm o equilíbrio entre essas duas faculdades. É algo que eu desejo. É algo que eu busco. É minha luta.

Outrora meus demônios eram as mulheres. Ainda são, na verdade, só que menos. Domei um pouco essa ânsia por seus cabelos volumosos, seus seios firmes, suas mãos delicadas, seus dentes brancos, seus olhos rasgados, sua boca flamígera, suas pernas esticadas, seus perfumes doces, sua pele macia, seus balançares de flancos, suas mentiras, suas lágrimas melífluas e, principalmente, sua obsessão por serem desejadas, amadas e compreendidas a todo o instante.

"A menor das diferenças entre homem e mulher é a biológica", um amigo me disse outro dia.

Mas há outros demônios: e todos fazem morada no ego. Eles vêm de acordo com o seu tamanho: mulheres; dinheiro; posição social; ego; espírito; equilíbrio; e virtude. Ego de egoísmo. É preciso travar duelos com coragem. E a arena é dentro. Dentro da gente.

Conhecimento é a única forma legítima de libertação.